Blog
de Luiz Gravatá com algumas dicas para
a patota de estudantes de jornalismo da Lagoa
- Rio
Sexta-feira, Agosto 13, 2004
Amor gramatical
Era a terceira vez que aquele substantivo masculino se encontrava com o artigo feminino no elevador. Ele, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida, era bem definido e singular. Ela, muito jovem, com maravilhoso predicado nominal, era ingênua, silábica, um pouco átona, ao contrário dele, um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos.
O substantivomasculino gostou da situação: os dois ali sozinhos no elevador, longe de tudo... Sedutor, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado e permitiu o índice.
De repente, o elevador pára. Os dois estão sós. Ótimo - pensou o substantivo - um bom motivo para provocar alguns sinônimos. Já estavam bem entre parênteses, quando o elevador volta a se movimentar. Ao invés de descer, no entanto, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Oba ! - pensou ele. Usando de sua flexão verbal, levou o artigo feminino ao seu aposto.
Entraram no aposto e ele logo ligou o fonema; ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, suave e convidativa. O substantivo preparou para ela uma sintaxe dupla e para ele um hiato com gelo. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando logo o substantivo começou a se insinuar. Ela foi deixando, deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial e rapidamente chegaram a um imperativo. Todos os vocábulos diziam que terminariam em um transitivo direto.
Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, ele sentindo seu ditongo crescente, se abraçaram numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois.
Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula. Ele não perdeu o ritmo e logo sugeriu um ditongo oral, talvez uma ou outra soletrada em seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por todas essas palavras, estava totalmente oxítona, sujeitaàs vontades dele. Depois de muita conversa, resolveram partir para o comum de dois gêneros: ela totalmente voz passiva, ele voz ativa.
Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ficaram algum tempo nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, dela tomava conta inteiramente. Estavam na posição de primeira e segunda pessoas do singular. Ela era um perfeito agente da passiva, ele paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.
De repente, a porta se abre. Era o verbo auxiliar do edifício. Tinha percebido tudo. Entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história. Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício.
O verbo auxiliar se entusiasmou, e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura, aquilo não era nem comparativo, era um superlativo absoluto. Foi se aproximando dos dois, com aquelacoisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. As condições eram essas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.
O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, o expulsou e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.
Agora, quem coloca ponto final sou eu: isto é um conto rápido, e não uma oração adjetiva explicativa.
Fonte: David Hadjes
Heavy Mental Unltd. (Goldenlist) (com adapações)